Linha do tempo do design gráfico no Brasil é o levantamento mais abrangente já realizado sobre a atividade no país. Dois séculos de produção,que vão do início do XIX ao final do século XX, desfilam por 744 páginas em mais de 1600 imagens em cores, num delicioso testemunho visual da história do Brasil neste período, capaz de espertaras lembranças de públicos muito variados.
Organizada por Chico Homem de Melo, que responde por textos e comentários, e por Elaine Ramos, responsável pelo projeto gráfico, o projeto consumiu três anos de pesquisa no mapeamento de livros, revistas, jornais,sinais, cartazes, discos, selos postais e cédulas.
O resultado é supreendente e traz inúmeras descobertas e redescobertas,como as capas da revista pernambucana P’ra Você, as movimentadas páginas do tabloide Raposa, a fantástica coleção de livros Museus do mundo ou a potente produção de designers como Fred Jordan e Fernando Lemos. O livro, que coloca definitivamente o Brasil no panorama do design gráfico mundial, passa a ser referência obrigatória para pesquisadores,estudantes e profissionais de design, artes visuais e publicidade, e é também um fascinante registro da cultura visual brasileira.
Linha do tempo do design gráfico no Brasil
Chico Homem de Melo e Elaine Ramos
Cosac Naify
744pp.

A senhorita de Scuderi é a primeira novela policial da história da literatura alemã. Na Paris de 1680, uma visita noturna leva a senhorita de Scuderi, famosa escritora de 73 anos, a investigar uma série de crimes. As vítimas são sempre homens da nobreza que levam joias de presente para suas amantes. Antes de realizar seu intento, eles são mortos com uma punhalada – e as joias desaparecem.

 

A senhorita de Scuderi
E. T. A. Hoffmann
Marcelo Backes (tradução)
Civilização brasileira
144pp.

Leminski no círculo dos escritores mais inventivos se ombreia em talento com Joyce, Rosa ou Carroll no fabuloso Catatau, seu aclamado primeiro livro, e a um Italo Calvino ou Cortazar neste Agora é que são elas.

Sempre genial no que fazia, Leminski saiu-se com esta: “O romance não é mais possível. Agora é que são elas é um romance sobre a minha impossibilidade de fazer um romance”. E lançou então esta narrativa, em lúdico e atrevido exercício, misturando todo seu repertório e talento como poeta, tradutor, ensaísta, publicitário, músico e transgressor inventivo de diversas normas.

Com grande habilidade e competência neste ”suprarromance” misturando paródias, ironias, citações várias, inversões de perspectivas, norma culta ou linguajar desbocado, Leminski vai tecendo tramas: personagem sem nome, narrador-malandro que queria ser médico, mas virou astrônomo, tem um caso com Norma, filha de seu analista Vladimir Propp, escritor russo, autor da Morfologia do conto maravilhoso…

As normas propostas por Propp nesse livro norteiam ou confundem a vida e ações das personagens enquanto rola uma agitada festa que estranhamente não comemora nada, divagações e questionamentos sobre os lances de uma guerra em algum lugar no cosmos, idas e vindas no tempo e no espaço, na história: tudo parece muito ao acaso, despretensiosamente ou não, para reviravoltas do pensamento culto, da filosofia à psicanálise, com uma linguagem simples, leve e solta, ligeira e musical, embaralhando e desmascarando as articulações da lógica e as regras dos esquemas prontos.

Além das aparências, este de¬fi¬nitivamente não é um ro¬man¬ce fácil ou superficial. E a crí-tica vem se desdobrando em análises para lhe renovar elogios.

A vida como um carnaval passando pelo labirinto, dentro ou avessa a certas normas. Ficção e realidade, indagações sobre a existência. “Ao delito de deixar o dito pelo não dito” é o pensamento vivo de Leminski que conspira por aqui. Mas será que é mesmo assim?

Agora é que são elas
Paulo Leminski
Iluminuras
224pp.

Jaromil cresce na Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas. Para o júbilo de sua mãe, manifesta já na infância o dom de criar rimas. O menino pouco conhecerá o pai, que é preso pela Gestapo e morre num campo de concentração. Assim, é a mãe quem vai cuidar para que seja um grande poeta.
O jovem, porém, se entusiasma com a revolução e põe sua arte a serviço da sociedade socialista. Para o desespero da mãe, ele não faz mais versos rimados. Agora redige palavras de ordem.
O poeta quer ser livre e pertencer a algo maior, e ele não está sozinho. A seu lado estão Rimbaud, Lermontov, a poesia da afirmação, da embriaguez. Mas Jaromil nunca será verdadeiramente livre, pois o universo que o gestou não lhe permitirá emancipar-se de suas amarras.

A vida está em outro lugar
Milan Kundera
Denise Rangé Barreto (tradução)
Companhia de bolso
336pp.

Os quatro contos selecionados para a coletânea — “Ewald Tragy”, “Wladimir, o pintor de nuvens”, “Aula de ginástica” e “Os últimos” — dão uma prova do vigor que já se apresentava no período de busca de personalidade literária do jovem autor, entre 1898 e 1907. “Nos contos, o leitor logo reconhecerá o jovem René de Praga, e não só ele como toda a atmosfera da cidade, com as características da grande e pequena burguesia daquela época (…)”, afirma a organizadora no prefácio desta edição.
Já o ensaio que dá nome à coletânea, “A melodia das coisas”, vem acompanhado de dois outros pequenos tratados, “Sobre arte” e “Obras de arte”, nos quais Rilke toma das artes plásticas, principalmente das pinturas de Paul Cézanne e das esculturas de Auguste Rodin, lições sobre equilíbrio e harmonia para aplicá-las à vida cotidiana.
Entre suas cartas publicadas — sete mil, ao todo —, o leitor pode acompanhar cronologicamente a evolução do jovem autor até a fama como poeta. Na seleção desta edição, que contempla dois dos destinatários mais fiéis de Rilke, sua ex-mulher Clara e o “jovem poeta” Franz Xaver Kappus, encontramos as inquietações ainda pouco conhecidas do escritor em relação à vida e à arte.
Como anexo, esta edição traz uma resenha de Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, escrita por Rilke em 1902, e um prefácio às Cartas ao jovem poeta, escrito por Franz Xaver Kappus, o “jovem poeta” que escolheu Rilke como seu mentor artístico e espiritual.

A melodia das coisas
Rainer Maria Rilke
Claudia Cavalcanti (tradução)
Estação liberdade
232pp.

Lugares às vezes guardam energias ou substâncias sobrenaturais que, quando entramos em contato com eles, revelam algo sobre violências do passado ou sobre aspectos assustadores da realidade. Neste livro, dois brilhantes contadores de histórias nos levam a lugares assustadores.

Em O Recipiente, de Orson Scott Card. Paulie Bride é um garoto solitário, forçado a confrontar o lado mais bem-sucedido de sua família, em uma reunião nas montanhas da Carolina do Norte. Mas acaba descobrindo uma caverna secreta e, em seu interior, um poder de morte que o une a um índio e a uma escrava mortos há muito tempo.

A Fábrica, de Carlos Orsi. Um estudante de arquitetura recebe do seu transtornado orientador, Ubirajara Fagundes, a tarefa de investigar os segredos ocultos na estranha geometria de uma fábrica construída por um misterioso emigrante húngaro, Simeon Kutk. O que a estranha geometria da fábrica abriga?

Duplo sobrenatural
Orso Scott Card  & Carlos Orsi
Devir
128pp.

O Eternauta

20jan12

Todo o mundo sabe que em Buenos Aires quase nunca neva, e que, quando isso ocorre, é porque algo anormal pode estar acontecendo, até mesmo uma catástrofe. Mas essa catástrofe poderia chegar ao ponto de anunciar uma praga mundial? Uma tragédia cuja causa evidente se desconhece? Um evento que mudará o destino da humanidade? E, pior de tudo, um horror sem um rosto definido contra o qual se deve lutar?

Em O Eternauta, o grande clássico argentino de ficção científica e aventura, Héctor G. Oesterheld e Francisco Solano López reinventam o mito de Robinson Crusoé e criam um universo que nunca poderá ser esquecido.

O Eternauta
Héctor G. Oesterheld e Francisco Solano López
Rubia Prates Goldoni (tradução)
Martins Fontes
360pp.

O primeiro livro pela Cosac Naify de um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira não poderia ser mais um. Vermelho amargo revela uma face diferente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós, e o insere definitivamente na literatura brasileira, para além de classificações. Um narrador em primeira pessoa revisita a dolorosa infância, marcada pela ausência da mãe substituída por uma madrasta indiferente. Vemos os irmãos, filhos de um pai que não larga o álcool e de uma madrasta que serve em todas as refeições fatias cada vez mais finas de tomate, desenvolverem diversas anomalias para tentar suprir a ausência de afeto e a saudade da mãe: um come vidro, a outra não larga as agulhas e o ponto cruz. Numa espécie de contagem regressiva, o narrador observa seus irmãos mais velhos irem embora de casa. A prosa memorialística vale a pena, no entanto: afinal, “esquecer é desexistir, é não ter havido”.

Neste depoimento de inspiração autobiográfica, a prosa poética de Bartolomeu é dolorosamente bela. Como ele mesmo coloca na epígrafe, foi preciso deitar o vermelho sobre papel branco para bem aliviar seu amargor. “Uma obra delicada como arame farpado”, nas palavras do diretor teatral Gabriel Villela, que assina o texto de quarta capa.

Vermelho amargo
Bartolomeu Campos de Queirós
Cosac Naify
72pp.

Da São Francisco dos anos 1970 à Nova York de um futuro próximo, Jennifer Egan tece uma narrativa caleidoscópica, que alterna vozes e perspectivas, cenários e personagens para contar como os sonhos se constroem e se desfazem ao longo da vida. Obra vencedora do Pulitzer, do National Book Critics Circle Award e do LA Times Book Prize no ano de 2011, A visita cruel do tempo será publicada em 19 de janeiro, com lançamento simultâneo em e-book.

Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e em garotinhas. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.

A visita cruel do tempo
Jennifer Egan
Intrinsica
336pp.

A ilha

17jan12

Um Rio de Janeiro cercado de água por todos os lados, habitado por moradores que anseiam fazer contatos com outros sobreviventes de uma catástrofe que levou todos os continentes para o fundo das águas. A cidade é agora uma pequena ilha, um pedaço do litoral carioca que teria se soltado durante a catástrofe. Nessa ilhota perdida no meio do oceano, pessoas e lugares começam de uma hora para outra a desaparecer, sem deixar vestígios. Assim é o cenário distópico de A ilha, o novo e intrigante romance de Flávio Carneiro, que fecha a Trilogia do Rio de Janeiro, iniciada com O campeonato e A confissão.

São três romances em que o Rio de Janeiro é referência para a movimentação dos personagens e que dialogam entre si e com alguns gêneros narrativos populares: o policial, no caso de O campeonato; o fantástico, em A confissão; e agora a ficção científica, em A ilha. Em todos eles, Flávio Carneiro faz uma homenagem à cidade, que se reinventa permanentemente e para a qual, mais do que nunca, os olhos do mundo estão voltados, e à própria literatura.

O Rio de Janeiro que surge em A ilha, no entanto, não perdeu sua cobertura natural para os edifícios. Os locais por onde passam os personagens lembram um Rio paradisíaco, da época do descobrimento, com suas florestas, rios, praias belíssimas, um mundo sem poluição, sem violência, e que de repente se depara com um novo e inusitado perigo.

O suspense é parte integrante da trama no momento em que começam a surgir nas praias misteriosas garrafas com mapas. Para onde apontam aqueles mapas é o que os moradores do que restou do Rio de Janeiro precisam descobrir. Narrado por um monge franciscano, que observa os acontecimentos na biblioteca do mosteiro e tenta identificar quem estaria por trás do envio das garrafas, A ilha se concentra em alguns personagens que buscam resolver o mistério de suas próprias existências, enquanto lutam para sobreviver.

Não faltam perguntas sem respostas no cotidiano tranquilo dos habitantes da ilha. As mães se preocupam quando os jovens insistem em nadar nas águas que podem tragá-los para o fundo, como acreditam que aconteceu com os desaparecidos; na delegacia, o encarregado das investigações policiais mostra-se atônito com o enigma das garrafas e os sucessivos desaparecimentos de pessoas que não deixam pistas ou vestígios. Com os mapas, há esperança de que o continente de onde a ilha se partiu ainda esteja lá, que não tenha sido levado pelas águas, como os outros. O que mais intriga os moradores, que planejam viajar de barco em busca do continente perdido, é por que os mapas têm sido lançados na direção de sua ilha.

Mais estranho que o desaparecimento de pessoas é o sumiço de casas, ruas, praças. De um momento para outro, a delegacia, o mercado, o cais simplesmente não estão mais nos lugares onde foram construídos. Não há sinais de desabamento, nem destroços. Aparentemente, tudo evapora, sem qualquer explicação. Só se tem certeza de uma coisa: a ilha está se movendo, provavelmente em direção ao continente de onde teria se originado.

É nesta cena pós-apocalíptica, cuja probabilidade de se tornar real, devido ao aquecimento planetário, vem sendo apontada pela comunidade científica, que se desenvolve este último clamor de vida do que seria uma cidade à beira-mar. Aos poucos, o leitor descobre quem é o povo que habita o que poderiam ser terras cariocas, que não têm apenas nomes semelhantes aos reais em comum com o Rio de Janeiro, mas, principalmente, um jeito todo especial de seus habitantes na luta pela sobrevivência diária.

A ilha
Flávio Carneiro
Rocco
208pp.



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