A ideia de nadar não era nada agradável para ele, mas sua dor nas costas o obrigou a monotonia das braçadas. E é ali, no espaço azul povoado de corpos anônimos navegantes, que ele descobre o sorriso e o corpo esguio de uma jovem e sedutora nadadora. Aos poucos, no pequeno universo de azulejos, água e cloro, vemos emergir uma terna e tênue relação entre os dois.

Segundo o prefácio escrito por Paulo Scott, “(…) as combinações de Vivès sustentam uma dicção própria – desconheço jovem autor com seus predicados. Num mundo em que se fala tanto, em que se mostra tanto, em que as informações são demasiadas, uma obra que trabalha tão bem o silêncio, com as lacunas, com a suspensão, merece toda procura que se possa dispensar. Sob a perspectiva da suspensão, da pensão a que se submetem os corpos (falando metaforicamente ou não), notável é a tradução do equilíbrio que só é possível na água: a flutuação, o espaço, a quebra da gravidade, a indução de lar, de aconchego, de retorno; todas essas condições fazem com que estar no ambiente aquático gere um contexto sensorial peculiar. Imergir, deslizar, isolando-se em estados de apneia, olhar.”

Bastien Vivès nasceu em 1984 e já publicou mais de dez livros. Aos 25 anos, ganhou o Prêmio Revelação de Angoulême (2009) por O Gosto do Cloro. Tudo em sua obra é delicado: dos traços finos de seus personagens, à narrativa leve, repleta de nuances e não-ditos. Em 2011, recebeu o Prêmio das Livrarias na França por Polina, confirmando-se entre os autores mais promissores e originais de sua geração.

O gosto do cloro
Bastien Vivès
Barba Negra

Os ogros não têm boa fama. Por aqui, também são conhecidos como bicho-papão, papa-gente, boitatá e cuca, entre muitos outros nomes. Pois, nesta fábula, o ogro está apaixonado, e logo por quem? Por uma fada.
Victor Hugo, criador de O corcunda de Notre Dame, conta a história do príncipe Ogrovsky, que resolve dar ouvidos ao seu coração. Ele vai até o castelo da fada, mas, em vez de encontrá-la, dá de cara com o filhinho dela. Depois de esperar, esperar e esperar pela dama, ele fica entediado e acaba engolindo o bebê! Pobre fada, esta história estava mesmo cheirando a desastre…

O ogro da Rússia
Victor Hugo
Sacha Poliakova (ilustração)
Eduardo Brandão (tradução)
Companhia das letras
32pp.

Retorno 201

29fev12

Em Retorno 201, Arriaga conta histórias passadas em uma rua que, ao contrário do que indica o nome, não dá meia-volta ou segundas chances para nenhum de seus habitantes.

Um homem apaixonado por uma triste mulher. Crianças que perderam – ou nunca tiveram – a marca da inocência e se envolvem em ações de uma crueldade cortante – e chocante. Um médico que não cura e, sim, contamina com maldade a vida daqueles em seu redor. A dor de um homem que não é perdoada pela hostilidade da pequenez humana. Amores não-correspondidos, pequenas, mas profundas feridas do cotidiano, em trajetórias das quais não há volta ou retorno. Essas histórias estão reunidas nos 14 contos deste lançamento da Gryphus Editora, Retorno 201, concebidos pelo romancista, diretor e roteirista Guillermo Arriaga.
O título do livro faz referência ao conjunto habitacional de classe média onde Arriaga passou a infância na Cidade do México. As histórias se passam num universo de desilusão, crueldade, rebeldia, apatia, repressão e mesquinhez, marcas registradas do roteirista de sucesso no cinema (Amores brutos, 21 gramas e Babel ). Seus personagens se dedicam, intencionalmente ou não, à destruição de sua vida e da dos outros, seja por meio da violência pura, ou por meio da repressão dos sentimentos. São amargos e derrotados, que se deixam tomar pelo medo e pela inércia.
São contos curtos, melhor dizendo, brutos, e que se apoiam em diálogos eficazes e contundentes. Todos têm a marca da morte, elemento inevitável na vida e recorrente nos escritos do autor.

Retorno 201
Guillermo Arriaga
Gryphus
160pp.

Terceiro volume da série de quadrinhos baseada no sucesso editorial A Torre Negra, de Stephen King, a HQ Traição é assinada pela mesma equipe de criação de Nasce o pistoleiro e O longo caminho para casa, ambos já editados no Brasil pela Suma de Letras. O roteiro das histórias é assinado por Peter David, escritor de HQs de ficção científica e responsável por clássicos como O incrível Hulk e Aquaman, com adaptação de Robin Furth, assistente de pesquisa do próprio King.

As ilustrações são de autoria de Jae Lee e do francês Richard Isanove, que desenharam edições de fenômenos pop como Homem-Aranha e X-Men, respectivamente.

Na trama, as coisas não andam bem no Mundo Médio. Roland Deschain, o jovem pistoleiro cujo destino é encontrar e proteger a Torre Negra, é atormentado por terríveis visões geradas pela Toranja de Merlin, a esfera que tem o poder de prever o futuro. O Rei Rubro, inimigo maior dos habitantes do Mundo Médio, trama há tempos a destruição da Torre e da própria realidade em que Roland e seus amigos vivem. E Roland, confrontado pelas visões enviadas pela Toranja, não consegue ver com clareza que o plano nefasto já está em andamento.

Traição leva a saga de quadrinhos de A Torre Negra a um ponto extremo de suspense. Neste volume, o ka-tet (grupo de pessoas unidas pela fé) ligado a Roland Deschain – entre os quais estão os amigos Alain John e Cuthbert Allgood – lida com eventos que sucedem o retorno a Gilead, a cidade natal do protagonista.

As aventuras de Traição e das demais edições ilustradas de A Torre Negra contam com uma peculiar mescla entre terror, ficção científica e faroeste e mantêm a originalidade do trabalho de Stephen King, que pessoalmente supervisionou a realização da série de HQs.

Traição – A Torre Negra HQ – Vol. 3
Stephen King
Jae Lee e francês Richard (ilustrações)
Eduardo Tanaka (tradução)
Suma das letras
152pp.

Sujeito Oculto

27fev12

Para o escritor Manoel Carlos Karam, a literatura deve ser “uma viagem sem bússola”. Numa dessas aventuras nasceu Sujeito Oculto, seu sexto romance. “No início não era a ideia de um livro, ao escrever os primeiros parágrafos acreditei que estava escrevendo um conto. Ficou sendo um conto longo”, define Karam. Com uma narrativa instigante, o personagem de Sujeito Oculto conta o dia a dia de sua profissão. Nada demais se ele não fosse um matador de aluguel. Com a banalidade dos conformados com seu destino, o narrador enumera suas dificuldades, alegrias, agruras e manias. Para os leitores que já conhecem os livros deste catarinense natural de Rio do Sul, prêmio Cruz e Souza (governo de Santa Catarina), o autor adianta: “Este livro não tem parentesco com ‘Cebola’, possui amigos em ‘Fontes murmurantes’, é primo de ‘Encrenca’ e nunca ouviu falar de ‘Pescoço ladeado por parafusos’.” A opção de Karam foi, ao longo da narrativa, desenhar um ser humano, como nos habituamos a imaginar, capaz de se adaptar a qualquer situação. O tema central de Sujeito Oculto é a violência e como, paradoxalmente, quanto mais ela é sufocante torna-se cada vez mais banal; como ela pode transformar os seres humanos que a tem como meio de vida ou àqueles acostumados a viver com ela, como um imponderável. O desfecho de Sujeito Oculto, supreendente, leva o leitor a várias reflexões sobre essa convivência.
Sobre o autor
Manoel Carlos Karam nasceu em Rio do Sul, Santa Catarina, em 1947. Vive em Curitiba desde 1966. É escritor e jornalista. Trabalhou nos anos 70 com teatro, escreveu e encenou textos como “O velório de Joaquim Silvério dos Reis”, “Hotel Luar do Sertão”, “Doce primavera”, “Fulano de Tal”, “Urubu”, “Esquina de 7 de Setembro com 31 de Março” e outros. Naquela mesma década foi co-roteirista e assistente de direção do filme “Aleluia, Gretchen”, de Sylvio Back.
A partir dos anos 80 passou a dedicar-se aos livros. Publicou “Fontes murmurantes” (Marco Zero, Rio de Janeiro, 1985), “O impostor no baile de máscaras” (Artes&Ofícios, Porto Alegre, 1992), “Cebola” (Prêmio Cruz e Souza de Romance – FCC Edições, Florianópolis, 1997), “Comendo bolacha maria no dia de são nunca” (Ciência do Acidente, São Paulo, 1999), “Pescoço ladeado por parafusos” (Ciência do Acidente, São Paulo, 2001) e “Encrenca” (Ateliê Editorial/Imprensa Oficial do Paraná, São Paulo/Curitiba, 2002). Retornou ao teatro em 2003 com a leitura da peça “Duas criaturas gritando no palco”.

Sujeito Oculto
Manoel Carlos Karam
Barcarolla
144pp.

Moscas azuis

24fev12

Rafael Molinet vive das lembranças dos seus tempos de riqueza e de circular pela alta sociedade. Ele decide terminar a agonia da sua velhice empobrecida com 15 dias em uma estância de luxo no Marrocos, com o objetivo de se suicidar ao final da estadia.
Mas ao chegar ao luxuoso spa Rafael percebe que toda a alta sociedade madrilenha se encontra no local, e o grande assunto do momento é o possível assassinato de um homem riquíssimo. A história do crime se mistura à trajetória de vida de Rafael e ele se vê envolvido em analisar e solucionar o caso antes de deixar este mundo.
Rafael se vê juntando as peças do quebra-cabeça e encontra a possibilidade de mudar o rumo da vida dos hóspedes.

Carmen Posadas, nascida em Montevidéu em 1954, mora em Madri desde 1965. A revista Newsweek destacou, em 2002, Carmen Posadas como uma das escritoras latino-americanas mais importantes de sua geração. A Planeta publicou seu livro “Jogo de criança”.(2007)

Moscas azuis
Carmen Posadas
Planera
256pp.

 


Bananas podres

23fev12

Ferreira Gullar apresenta neste livro, em textos manuscritos, uma reunião de seus poemas intitulados ‘Bananas podres’, acompanhados por uma série de pinturas e colagens feitas por ele para esta edição. A infância em São Luís, a família, a passagem do tempo, a desordem e a tentativa de reter sensações estão presentes nesses poemas que refletem o melhor da poesia de Ferreira Gullar e suas próprias interpretações visuais sobre sua vida e expressão.

O tema das Bananas acompanha a produção poética de Gullar desde os anos de 1970 e está ainda presente em seu último livro de poesia, Em alguma parte alguma, recentemente premiado como o melhor do ano na
categoria pelo Jabuti. A infância em São Luís, a família, a passagem do tempo, a desordem e a tentativa de reter sensações estão presentes nesses poemas que refletem o melhor da poesia de Ferreira Gullar e suas próprias interpretações visuais sobre sua vida e expressão.

Bananas podres
Ferreira Gullar
Casa da palavra
64pp.

 


No primeiro dos ensaios reunidos neste livro, “Não se deve confiar nas aparências”, Joyce – quando muito jovem – reserva ao olho o papel de única exceção a essa máxima, apontando que ele “nos revela a culpa e a inocência, os vícios e as virtudes da alma”. Esse texto prematuro, cativante na feliz tradução a nossa língua, já sugere aspectos fundamentais da obra e da vida do gigantesco escritor irlandês, desenvolvida a partir de elementos como a culpa e o vício, a inocência e a virtude. De modo análogo ao olho por ele distinguido, seu olhar sobre a Irlanda, a vida e a arte desvela, em sua superfície (apesar da aparente pouca “profundidade” dos artigos) os fundamentos do autor, lançando luz sobre sua obra ficcional e poética.

Com este livro – organizado por destacados joycianos brasileiros que acumulam a incansável dedicação à tarefa de (bem) traduzir – Joyce parece estar mais presente, mais vivo entre nós, embora fôssemos, já, privilegiados pela existência de múltiplas traduções de sua ficção. Nestes ensaios: os aspectos políticos de sua obra (cuja existência foi, por vezes, negada) tornam-se evidentes, conforme comenta, em seu artigo no volume, Dirce Waltrick do Amarante; a visão crítica do escritor se mostra afiada – constitui-se “uma espécie de tribunal do qual nenhum contemporâneo sai ileso”, como afirma em seu estudo André Cechinel, para assinalar que esse aspecto esconde a indicação da trajetória literária do próprio autor; a teoria estética apresentada – depois ressurgida em sua ficção – já revela que “arte e vida confundem-se num mesmo todo” (no dizer de André); são identificáveis “temas, imagens, palavras, polêmicas” que integrariam Ulysses, prenunciando-se, na visão de Caetano Galindo, o “projeto” configurado pela obra ficcional de Joyce.

Quase desconsiderados no úl­ti­mo sé­culo, os escritos deste livro podem ajudar – como almeja Sérgio Medeiros – a revelar o “Joyce ‘ilícito’ do pós-modernismo” e a compreender o “grande barulho estético, e político,” produzido por Ulysses e Finnegans Wake. Alimentem esperanças os que entrarem. – Marcelo Tápia

De santos e sábios
James Joyce
Iluminuras
328pp.


Um dos cientistas mais respeitados da atualidade, o norte-americano David Eagleman é também um autor em ascensão num segmento que não para de ganhar leitores, o da neurociência. Incógnito – as vidas secretas do cérebro, seu título mais recente, foi bestseller do The New York Times, eleito melhor livro do ano de seu segmento pela Amazon, recomendação de leitura do Wall Street Journal, entre outros destaques. Com exemplos retirados do cotidiano, das artes, da história e da literatura, o autor apresenta os subterrâneos da mente e suas intrigantes contradições.

Incógnito – as vidas secretas do cérebro
David Eagleman
Rocco
288pp.

Roberto Bolaño escolheu, para abrir este volume de contos, uma epígrafe de Tchékhov. A citação não é aleatória: assim como o mestre russo, o autor chileno compôs, em Chamadas telefônicas, uma série de histórias curtas, com desfechos inesperados, que abrem caminho para múltiplas interpretações.
Tal é o caso de “Sensini”, o primeiro conto da coletânea, sobre um escritor argentino que se especializou em ganhar concursos literários. Trata-se de personagem arquetípico na obra do autor: um intelectual latino-americano, retratado com uma mescla instável de rancor e compaixão, que não consegue encontrar seu lugar no mundo.
Na segunda parte do livro, em que o espectro metaliterário cede lugar à violência, os leitores de Bolaño reencontrarão “velhos conhecidos”. Em um dos contos, o autor retoma a paisagem da cidade fronteiriça de Santa Teresa, em outro resgata seu alterego Arturo Belano. A sensação de déjà-vu estende-se também à terceira e última parte, protagonizada por personagens femininas indecifráveis. Ao repetir personagens e cenas, Bolaño constrói, livro a livro, um vasto universo ficcional. Estes contos são assim tanto um complemento para os ávidos leitores do autor quanto uma porta de entrada para seu território ficcional.

Chamadas telefônicas
Roberto Bolaño
Eduardo Brandão (tradução)
Companhia das letras
216pp.



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